Cor de leite derramado sob ouro manchado, um ouro suportado por dois impotentes pilares, que recortando a parede, criavam uma ampla e virtuosa janela. A janela, que mais parecia forjada por deuses, apoquentava-se de mágoas enferrujadas e desejos ultrajados, assim, se tornara vassala da realidade e escrava da luz. Trágica e intrinsecamente, a luz da realidade, vassalava a sua eterna escrava, e num acto tremendamente fugaz, permitia-nos visualizar todo um Novo Mundo. Um Mundo Sintrense, desvelando a magnificência da Serra, e relevando-nos ao seu verde nauseabundo e selvagem que nos escapava à manipulação e à tecnologia e à civilização. Era sim, beleza pura, não tendo a sua génese ocorrido numa necessidade absoluta, numa necessidade de ser, mas sim nos caprichos de um escultor anónimo, dito Deus, ou dito Natureza. Não sabia, desconhecia. Mas parecia nascer já sábio do Mundo em si, porém, ver com olhos todos o fazem, ver com alma só os aventureiros, que se atrevem a confrontar o Mundo Natural com o Mundo Humano. Acabando por os fazer colidir num só Mundo Ambíguo. Ainda assim, o verde da Serra expandia-se por toda a paisagem - tal como as minhas conjecturas por todo o meu ser - que reflectida pela luz do Sol e pela altivez, tão pouco altiva, do azul dos céus causava uma espécie de frenesim de vivacidades oscilantes sob o profundo do nosso lado mais facilmente cativado – o lado humano, a alma, o espírito, a essência – assim, de um modo extremamente inigualável e ferozmente belo, Sintra - esse recanto de Terra, perdido em formosuras e beldades, naturalmente inumanas – despertava o meu ser mais curioso, surrealista e abstracto.
